Jaron Lanier e os dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais

post originalmente postado no Medium no dia 15/04/2024 (rest in peace, Medium).

Quando empresas de mídia social forem pagas diretamente por usuários, não por terceiros ocultos, elas servirão a esses usuários.

Jaron Lanier é um cientista da computação norte-americano identificado (pela Wikipédia) como um precursores de realidade virtual, por ser um dos primeiros a estudar o tema e construir produtos na área desde os anos 80.

além de ser um pesquisador na área de computação, Jaron também é músico. ele tem vídeos no Youtube tocando os mais diversos instrumentos, em performances solo e com outros músicos. conheci este curioso indivíduo através de seu livro “Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais”, que acabei de terminar.

a verdade é que o livro é daqueles feitos para vender, com título chamativo e conteúdo semi-autoajuda. CONTUDO, traz ótimas reflexões. direto do seio do Vale do Silício, Lanier incentiva as pessoas a deletarem suas contas em redes sociais até que as grandes empresas de tecnologia tornem as redes menos nocivas. ele denomina como “Bummer” a abordagem de oferecer serviços gratuitos em troca de espionagem de dados, sua principal crítica.

[…] existe algo na rigidez da tecnologia digital — a natureza intermitente do bit — que atrai a maneira behaviorista de pensar. Recompensa e punição são como um e zero.

segundo Lanier, o nosso problema enquanto sociedade não é a internet, os smartphones ou até os algoritmos. o problema não é a tecnologia em si! é o plano de negócio problemático que tomou as grandes corporações detentoras das redes sociais, que funciona à base de propaganda e mudança de comportamento das pessoas. pra embasar essa opinião, ele traz falas de especialistas como Sean Parker, primeiro presidente do Facebook, e de Chamath Palihapitiya, ex-vice-presidente de crescimento de usuários do Facebook.

Lanier comenta brevemente sobre psicologia, política, economia, estagnação das grandes empresas de tecnologia e sobre a mentalidade ingênua dos que defendem que tecnologia financiada por propaganda vai resolver os problemas do mundo.

Há pessoas no Vale do Silício que acreditam que tudo no mundo pode ser reinventado/transformado por start-ups de tecnologia. Vamos transformar a medicina, a educação, o transporte e até o ciclo de vida e morte, mas temos um ponto cego em nosso método básico de operação. Sacralizamos a crença de que a única maneira de financiar uma conexão entre duas pessoas é por meio de uma terceira que está pagando para manipulá-las.

histórico do modelo de negócios baseado em anúncios

segundo Lanier, o que conhecemos hoje como serviços gratuitos que usam nossos dados foi, em parte, uma consequência do movimento que lutava por código aberto e gratuito na década anterior à concretização da internet. não há qualquer taxa para criar uma conta no Facebook, ou realizar uma busca no Google, ou assistir a um vídeo no Youtube.

ironicamente, este movimento a favor do código aberto levou empreendedores a focar quase exclusivamente em modelos de negócio baseados em anúncios. afinal, como os programadores ganhariam seus salários se os códigos fossem abertos e gratuitos a todos?

A gratuidade foi o que impulsionou esses serviços a se tornarem tão grandes tão rapidamente. É também a base do plano de negócio Bummer que tem sido tão destrutivo […] A propaganda se tornaria o negócio dominante na era da informação.

mas e aí, existe solução?

Lanier defende que os serviços fornecidos hoje à população de forma gratuita em troca de dados sejam serviços pagos sem “clientes ocultos” interessados em propaganda, que ofereçam dignidade tanto aos usuários quanto aos trabalhadores por trás do serviço. ele argumenta inclusive que alguns serviços conseguiram se posicionar no mercado desta forma, como é o caso da Netflix, e de outros serviços de streaming de vídeo e música.

Não se pode enriquecer uma sociedade tornando-a louca. A única saída é mudar o modelo de negócio de modo que as empresas Bummer de hoje possam ganhar dinheiro de forma diferente.

é claro que a solução exigiria uma nova forma de pensar propaganda na era das redes… e que não seria trivial. mas talvez a reflexão seja o primeiro passo para nos colocarmos em um caminho mais saudável.

recomendo a leitura 🙂